O empresário João Caetano ajeitou cuidadosamente o tornozelo torcido no estofado marrom e, enquanto esperava sua vez de ser atendido no consultório do dr. Carlos, procurava algo para ler no emaranhado de revistas antigas da antesala. Num passar de olhos, lhe despertou interesse o título de uma reportagem publicada na Superinteressante, de agosto de 2008 . "Não estamos sozinhos" tratava da possibilidade, cada vez mais aceita na comunidade científica, de existir vida em outros planetas. João acompanhava vorazmente todas as novidades sobre o assunto. Afastou ligeiramente o corpo buscando maior conforto e começou a leitura. Concentrado, sua expressão assumiu um tom mais sério ao chegar no comentário do astrônomo Carl Sagan: “Deve haver bilhões de trilhões de mundos. Então porque só nós, jogados aqui num canto esquecido do Universo, seríamos afortunados?”, dizia. Sorriu ironicamente. Achava egoísta, manipuladora e pouco inteligente a idéia de que, por um acidente astral ou vontade divina, somente a Terra tivesse sido agraciada pela vida. Aquela reportagem, de abordagem esforçadamente científica, era um indício de que o nível de consciência estava aumentando... Mas sabia que ainda era pouco.
- João Caetano - chamou a secretaria, despertando-lhe do quase transe. Era a sua vez de ser atendido.
Entrou e, como era examinado, aproveitou para contar as novidades ao médico, seu amigo. Quarenta minutos: discutiram sobre a contusão, combinaram um churrasco, abraçaram-se e se despediram.
- "Apareça mais em casa, seu tratante", disse João.
- "Claro, é só me convidar" - respondeu o médico. "E não se esqueça de tomar os remédios certos nas horas certas. Caso contrário, pode ocorrer alguma reação química adversa", recomendou e fechou a porta do consultório.
João não prestou atenção.
Já no carro, com seu motorista particular, janelas abertas e curtindo o vento na cara, sua memória buscou novamente o que lia no consultório. "Vida fora da Terra, mas claro!". João lembrava que a reportagem mostrara fielmente a mentalidade em progresso, mas atrasada dos cientistas em relação ao tema. Lamentava a sofreguidão em procurar presença de água e moléculas orgânicas como indícios de vida em outros planetas. A reportagem alegava que essa procura não se tratava de "egocentrismo de cientista terráqueo" em achar que a vida lá fora deveria ocorrer igualmente a daqui; mas sim, de respeito às "leis universais da química".
João discordava: "Leis universais da química... Os homens não conhecem meio palmo fora da Terra e já querem falar em leis universais?!", pensou. Na sua cabeça, o silogismo era simples: "a Terra é um planeta pequeno e novo e a chance de existirem elementos ainda não descobertos no Universo pelos cientistas daqui é imensa. Existindo outros elementos, existiriam também outras reações 'químicas' que, em tese, originariam outro tipo de 'matéria'. Portanto, nada impediria que, existindo vida em outros Sistemas, esses seres sejam dotados de componentes diversos aos nossos e que a matéria constituinte deles fosse, por exemplo, invisível e irrastreável". Defendia que não era egocentrismo de cientista, mas limitação da própria (cons)ciência.
"E pensar que os seres humanos ainda têm que expandir muito o cérebro e mudar o próprio conceito de Vida para dimensionar o que existe no Universo", levava consigo.
Devido a Razão (faculdade limitada da matéria humana a qual teve que se adaptar), às vezes, achava quase impossível que essa evolução física e conceitual acontecesse. Mas o delírio durava pouco. Cessava quando se lembrava da Física Quântica, da Internet, da Teoria do Caos e de outros sinais mais sublimes, arautos da Nova Era. Convicto, acredita na Natureza Humana, na Criatividade, na Vida, no Infinito e no elo que une todos os seres do Universo.
Lembrava que algumas manifestações de OVINI's coordenadas por ele já tinham sido vistas até por amigos araponguenses. "O Rubens, o Alves, o Luiz e o Rocha juraram que viram", sorria com a sensação de dever cumprido. Mas era apenas o começo.
Quando se teletransportou a Arapongas no primeiro milionésimo de segundo do ano 2000, o alienígena Yelworc Retsiela achou a nova veste corporal demasiadamente pesada. Com o tempo, as tecnologias a seu dispor ajudaram-no a aliviar o fardo. Na última semana, tentado a sair da rotina de carros-aviões-helicópteros, resolveu jogar futebol e acabou torcendo o tornozelo...
A escolha de seu nome na Terra, João Caetano, foi motivada pelos cantores Caetano Veloso e João Gilberto, uns dos poucos terráqueos cujas vibrações musicais conseguiam viajar bilhões e bilhões de anos luz e encontrar identidade em seus sentimentos em Ômega 12-12-12, nome que os humanos deram a seu planeta de origem. Se estivesse em seu "corpo" natural, não poderia ser visto; mas se vestir de carne e ossos e sofrer das mazelas do pouco evoluído corpo humano era parte da estratégia.
O plano é se tornar o homem mais rico da região. Falta pouco. Sua mente avançada possibilitou que se transformasse num conceituado empresário do ramo de serviços e acumulasse fortuna rapidamente. Utilizará dinheiro e poder para alternar exercícios da mais alta benevolência e da mais cruel tirania e, assim, preparar os paranaenses do norte para as próximas manifestações do Novo Eon. O próximo passo será utilizar seu dinheiro para eleger um deputado estadual em 2010 e, através do lobby, triplicar seus faturamentos.
Sinais - como a tirania - já foram previstos pela ciência oculta terrestre, e já estavam sendo executados por outros missionários estrangeiros, em diferentes partes do mundo. O que determinará as diferentes formas de tratamento para as pessoas sob a "tutela" de Yelworc será o grau de Cultura e de Consciência de cada uma. Ele não enxerga o Mau pela ótica humana, pois acredita que "o fim justifica os meios" e que o sofrimento leva ao aprendizado. Aliás, adorou "O Príncipe", de Maquiavel.
Ama ler (o extra-terrestre deveria permanecer em Arapongas durante toda a missão, e exatamente pela dificuldade em adquirir os clássicos da literatura e em assistir aos últimos lançamentos do Cinema - arte que também seria utilizada por seres mais evoluídos para preparar os homens para a Nova Era - o obrigou a se mudar para Londrina).
Ainda que a ame, atualmente, só vem a "Cidade dos Pássaros" a passeio e para visitar seus amigos, como o dr. Carlos. Ele poderia curar a própria lesão - sem drogas químicas e em menos de um segundo.

Cássio, incrivel!!! Adorei ler. lembra, qd em uma aula o profº MOura disse que uma crônica é boa qd não sabe se o que aconteceu é real ou não. É essa sensação que tive de tão bem escrita. PArabéns!!!
ResponderExcluirAnda escrevendo bem senhor, dá para perceber a energia que a faculadade depositou no seu ser, parabéns por isso.
ResponderExcluirUma boa semana pra ti e para seu filho.
Obrigado, gente. Elogios de pessoas como vocês são valiosos.
ResponderExcluirVanuza: É uma viagem misturar o real com a ficção, ainda que, às vezes, o real seja uma fantasia e a ficção, um disfarce do real. Espero que continuemos essa correspondência porque seus textos também dizem muito e são lindos.
Mário: Fico grato por suas palavras porque escrever bem não significa somente ter boa técnica e estilo, mas, acima de tudo, significa pensar bem. A faculdade quando encarada para a evolução humanística e espiritual acrescenta muito mesmo.
Valeus!
Olá, grande Cássio.
ResponderExcluirFazia tempo que não passava por aqui, fico feliz em saber que é pai. Agora, estou com um palpite que este político seja B... P...
Ah, só achei que você pegou pesado com Maquivel, este coitado, sim, foi deturpado. O Príncipe não é um missal, carregado de mandamentos tirânicos. É apenas um livro de constatações.
Abraços, garoto.
Felicidades.
Maravilhoso! Também tive a mesma sensação mencionada pora Vanuza. O real e o fictício se emaranhando em cada palavra redigida. Parabéns!
ResponderExcluirAh, obrigado por mencionar meu blog em seu post.
ResponderExcluirPara falar a verdade, já era para ter lhe agradecido, mas só me dei conta do lapso após postar o comentário. Bateu preguiça de escrever de novo -quando estas coisas acontecem, é bom aproveitar.
Cuide-se.
Fala, **** (assim mesmo que me refiro a você?). Fico contente que tenho aparecido.
ResponderExcluirAgora, sem sugestão de nomes de políticos... poderia ser qualquer um....rs
Confesso que usei um cliche do Maquiavél, mas o E.T. gosta dele ainda assim. Mas valeu o toque. Ser pai é....
Thatha, brigado pelo elogio. Que continuemos a nos comunicar especilmente sobre nosso contexto... parabéns também!
É isto aí, Cássio!Pode se referir a mim como **** ou senha de quatro dígitos (rsrs). Pô, eu também curto Maquiavel.
ResponderExcluirAbraços, garoto.