segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

"Fui ao inferno e voltei!"

Técnico de alimentos por formação, fora paraquedista da aeronáutica, seminarista e, até pouco tempo, porteiro. Feliz com o trivial... Em mais um dia comum, chegou do serviço, se banhou como de costume, jantou como de costume e deitou para descansar como de costume. Noite. Sono. SSoono. SSoonnoo.SSSSS. Dorme. Instantes depois, surge num lugar estranho, meio branco. Era ruim. Era gelado. Era o inferno ruim e gelado, onde se alternavam cenas fragmentadas de uma batalha.

Não estava sonhando!

Aos 60 anos, o apucaranense Lourival Pedro Savracky teve um encontro com a mais cruel face do caos. Depois de um dia tranqüilo de trabalho, foi atacado violentamente por um infarto do miocárdio (Infarto. Não bebia, não fumava, não cheirava, não era sedentário e, no entanto, fulminante). Foi levado às pressas para a Santa Casa de Misericórdia de Arapongas, sem saber ao certo o que acontecia. Sem imaginar que passaria a travar uma luta de sete meses contra a morte.

A lesão no músculo cardíaco foi causada por uma arritmia. Seu coração chegou a 220 batidas por minuto, 120 a mais do que o normal! Foi submetido a traqueostomia (procedimento que fura a garganta com um tubo para auxiliar a respiração). Segundo os médicos, não viveria por muito tempo. Resistia. Ficou 20 dias internado. Resistiria?

Quando saiu do hospital, o ex-patrão providenciou seu internamento num asilo, em Apucarana. Era apenas o começo da guerra. Foi levado quatro vezes a UTI, com emergência. Teve pneumonia dupla. Quatro meses de cama, dependência total para comer e se limpar. Usava fraldas. Não se movia. Não se moveria mais. Não mais seria o seo Lourival pura aventura, o senhor lourivável pura lisura outrora era. Não?

...
(Arritimia. Oito remédios pro coração por dia. Várias sessões de fisioterapia)
...

Caminhando por aquelas instalações, vi um homem que dividia um banco de madeira com alguns senhores. Tinha uma serenidade que o destoava dos outros. Me aproximei. Ele tentava sintonizar no rádio de pilha uma estação que transmitia notícias, quando puxei assunto. Descobri que ele gostava de consertar móveis e aparelhos eletrônicos. Falava muito baixo. Com algum esforço, notei que tinha ótimo vocabulário e era bem articulado. Me contou que era chamado de filósofo pelos colegas. Leu sobre Filosofia. Tinha filhos em boa situação financeira em São Paulo e preferiu não lhes dizer que estava naquele asilo. Falava sobre sofrimento.


“Você sabe o que é não poder se mexer?!”
- Só de imaginar...
“Eu dependia dos outros pra tudo. Um dia, a enfermeira me deixou sozinho por uns instantes e, quando voltou, eu estava caído no chão. Ninguém acreditava que eu voltaria a andar. Devo receber alta em abril."


Quando perguntei o que causara aquela situação, no profundo da perene rouquidão quase inaudível de sua voz, um grito sublime e eloqüente de vitória revelou:


“Meu filho, fui paraquedista da aeronáutica, seminarista e porteiro.
Também já fui ao inferno e voltei!”
(fotos: Aristeu Leandro)

12 comentários:

  1. Puxa, Cássio! Como é bom ouvir histórias, histórias cheias de vida, amor, esperança, gratidão, fé...
    Amo ouvir histórias, ler histórias. Aprendo tanto com elas.

    Obrigada, por dividir comigo, sua leitora, esta história.

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  2. Desculpa é o meu jeito, realmente uso meu blog mais como desabafo, ai acabo naum vendo recados e talz... e as vezes os vejo e no momento me nego a responder por não esta me sentindo muito bem...
    mais adorei a sua visita, seu comentario...
    e não precisa se sentir acuado não .. eu naum mordo...rsrs

    Ai... simplesmente lindo tudo que esta escrito, me arrepiei ao ler...
    Queria poder ter o dom de usar as palavras como vc as usa, emocionante...

    bjos...

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  3. Ola Cassio...
    obrigado pela postagem em meu blog...
    e obrigado tambem pela força...
    espero que possamos ser parceiros..
    abraços...

    A tua reportagem foi legal demais...
    o Sr. está vivo ainda????
    onde ele mora???

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  4. Olá Cássio, muito tocante sua história. É importante ler essas coisas para podermos refletir um pouco sobre o que é realmente a vida. Precisamos notar que existe algo mais que contas para pagar e filhos para cuidar e toda a rotina do dia-a-dia.

    Histórias como a de seu Lourival nos ensinam a ter consciência e a lutar.

    Mande melhoras para ele.

    E muito obrigada pela visita ao meu blog, um abraço!

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  5. Ana, realmente Seo Lourival é um exemplo. Escreve também umas frases densas que publicarei mais pra frente.Quando for visitá-lo, desejarei melhoras.

    Vítor, até abril, o seo Lourival estará no Asilo São Vicente de Paulo, em Apucarana. Se recupera cada dia mais. É uma presença luminosa naquele lugar. Uma companhia prazerosa com uma sabedoria positiva. A parceria já está formada. Acho que nós, que dividimos mesma região geográfica, precisamos mesmo dialogar, discutir sobre nossa cultura e sociedade. Essa é a função mais nobre dos blogues.

    Um abraço a todos e obrigado.

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  6. Cássio... o que será do seo Leo depois de abril??? pra onde ele vai???

    Abraços

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  7. Vítor, também estou curioso pra saber o destino de seo Lourival. Quando fizer nova entrevista com ele, trago as novidades.
    Um abraço.

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  8. Ok, obrigado
    vou ficar esperando...
    abraços
    e obrigado pelas postagens

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  9. Olá... OLha, sei que a história contada pelo Lourival é, de fato, muito bonita. Mas não é o espelho da verdade. Lourival NUNCA foi Paraquedista, vivia de bicos a vida toda, trabalhou com Carnes em frigoríficos e foi além estelionatário, presidiário no estado de SP. NUnca foi bom filho ou bom pai, tendo os pais vividos boa parte da vida sem notícias do filho.
    Quanto a seus filhos, nenhum o reconhece como pai, e tem inclusive uma filha que nunca assumiu morando no Paraná. Infelizmente foi uma pessoa de péssima índole e caráter. Jà roubou, enganou pessoas incautas e terminou a vida da mesma forma com que tratou todos os que nela estiveram: Com desprezo.

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