sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Política e salas de Cinema

Não gostaria de estrear este Blog com um assunto tão desinteressante. Na verdade, preferiria falar da mudança de visual de Aline Moraes ou dos eternos rumores de casamento de Xuxa e Luciano Szafir. Mas, infelizmente, neste período, surge uma espécie de inquietação de consciência que me obriga a pensar em temas menos dignos de atenção.

- Pois bem.

Ontem, encontrei no MSN uma amiga que não vejo tem algum tempo. Karine. Há quase um ano, não sei por qual motivo, ela achou que seria melhor para seu futuro se morasse nos Estados Unidos (sim, o mesmo país dos ‘Iraques’ e ‘Hiroshima-Nagasakis’). Hoje, lá está trabalhando e estudando.


“Teclávamos” sobre sua nova realidade e, quando me dei conta, discutíamos sobre a cultura dos americanos do norte. Ela me confessava o quanto estava admirada com a educação e a honestidade daquele povo e citou um exemplo. Como não precisa esperar pelas estréias, costuma ir muito ao cinema na cidade de Everett, onde mora.

Acontece que, uma vez dentro do recinto, as portas para as salas de exibição dos diferentes filmes não ficam trancadas e também não existe nenhum tipo de monitoramento de guardas ou câmeras. Ou seja, nada impede que o telespectador, após assistir ao filme que pagou, entre em outra sala e veja outro filme sem ter que desembolsar nada a mais. E pasmem: Segundo ela, ninguém faz isso! Ninguém.

- Você fica admirada, Karine, mas por que?

Também falamos sobre política. Como todos sabem, assim como no Brasil, os EUA passam por período eleitoral. Entre outros enfoques, ela comentava o quanto os americanos são conscientes neste aspecto. Lá, não existe horário eleitoral na TV. Os candidatos apresentam suas propostas em debates ou comitês próprios e os cidadãos vão a esses locais ouvirem o candidato – e não determinado artista que o esteja apoiando, como em outros lugares... Não é demais lembrar que lá o voto é facultativo e a maioria participa das eleições. “Aqui o termo politicamente correto não é clichê”, me dizia.

- Mas, voltando ao submundo...


É comovente, entre as aves que aqui gorjeiam, a eloqüência com que se fala mal dos políticos. Convenhamos, muitos deles, realmente não são nenhum poço de lisura... Mas o que acontece é que essa falta de idoneidade dos maus é usada por muitos projetos de cidadão como desculpa para repudiar a Política, da qual depende nosso futuro. Desvalorizado, o poder revolucionário do voto se perde nas cestas básicas e no abstrato universo das promessas. Esse pensamento é o combustível dessa máquina monstruosa que nos flagela há mais 500 anos...

Francamente, deixar isso acontecer é que é desonestidade! E digo mais. Somos nós os principais culpados pela rude educação que não temos, pelos milhões de famintos camuflados pelas Bolsas, e, principalmente, pela perpetuação dessa laia murina alojada no poder. Sim, porque até os ratos têm uma procedência.


Só peço que não ousem criar cinemas nos moldes de Everett aqui no Brasil. Seria um golpe duro demais a uma arte que tenta se reerguer.

- Enfim...
Lembro que, ao final da conversa com Karine (a “Quéruinn”), ela comentou que não entendia o motivo de tanto frisson da minha parte em relação à sua nova situação. “Sou uma simples babá”, me disse. “Realmente – retruquei -, a profissão de babá é comum. Ser babá nos EUA é que tem uma grande diferença cultural e financeira”.
Ela concordou.

- Não, eu não tenho um passaporte.

4 comentários:

  1. O que dizer??? Gostei, muito! Interessante, divertido, curioso, uma leitura agradável, me fez pensar.

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  2. Cássio Roberto Gonçalves, mais um texto ótimo. Parabéns!!! Adoro pessoas inteligentes e sensíveis. Te adoro!

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  4. Cassio, parabens, voce esta fazendo um otimo trabalho. Gostei muito de todo o conteudo que apresentou ate agora. Lembrei-me de um pequeno dialogo com meu patrao na semana passada. Apos assistirmos o debate entre os candidatos a vice-presidencia do USA, perguntei em que lugar ele iria votar. Ele me explicou que votaria pelo correio, ou seja, o governo mandaria toda a documentacao e ele so enviaria de volta para a contagem dos votos. Eu disse que achava muito interessante, principalmente a ideia do voto facultativo, e comentei que o voto no Brasil era obrigatorio. No mesmo instante ele me olhou e disse: "Como assim? Nao entendo, voto obrigatorio? Achei que o Brasil fosse um pais Democratico". "Pois e", eu respondi, "eu tambem achava, mas vejo que a 'Democracia' brasileira e um pouco diferente da norte-americana". Ele riu, balancou a cabeca como se nao concordasse com tal situacao e disse: "Brazil..."

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