Rodar por pelo menos duas vezes por dia no ônibus metropolitano pode ensinar muito. Uma alma sensível consegue ver o mundo sob uma perspectiva diferente, com movimento, fugacidade. E, principalmente, é possível aprender com pessoas diferentes, reais, com um senso comum de uma brasilidade profunda. Universidade popular para o observador... Como são fantásticas essas viagens!
Nínger, meu professor de Retórica, diz que "se você quiser ficar sabendo o que 'passou' no Fantástico do último domingo, é só entrar no amarelinho na segunda-feira de manhã"(ele acha extraordinárias as histórias que escuta no ônibus e brinca que pretende escrever um livro chamado "As Memórias do Amarelinho"). Sobre o Fantástico, não posso dizer nada porque só pego ônibus na segunda à tarde... mas, como amerelinhólogo autodidata, posso garantir que meu professor está certo sobre as histórias.
Dentro do veículo, são inúmeras opções para a atenção.
O "quente", na minha opinião, é conversar com as pessoas. Essa deve ser a prioridade. Já me diverti e aprendi bastante com essa galera do trecho. De Rolândia à Apucarana, conheço todos os motoristas e cobradores e a maioria dos que utilizam com frequência o coletivo. Já ri com bêbados, flertei com belas, briguei com 'motocas', ouvi fofocas, experimentei a temperatura, o aperto e os cheiros da lotação...
Sempre estou atento para os assuntos simultâneos que estão rolando.
Na maioria das vezes, o que prevalece são as banalidades do cotidiano ditas por todo o tipo de gente. Eles falam alto sobre o namorado da vizinha, o carro novo do primo da irmã da cunhada, as mulheres que estão na "fita" e assim por diante... Mas também existe o papo cabeça. Como a linha serve de baldeação para cidades importantes do Paraná, sempre tem gente inteligente viajando - no ônibus e nas idéias. Outro dia, presenciei uma fabulosa discussão sobre a musica brasileira. Falaram de João Gilberto, Caetano, Chico, Russo, tudo com uma propriedade indiscutível.
No entanto, a maioria das pessoas, pelo menos no início, é tímida. Eu também sou e, por isso, quando não consigo um contato visual para iniciar a comunicação, mergulho em algum livro ou revista. Isso acontece frequentemente e até já perdi as contas do quanto aprendi com essas leituras. Por exemplo, conheci Laurence Olivier entre Arapongas e Apucarana. Ééé, o ator inglês... Como o percurso dura cerca de meia hora o contato foi bem superficial, mas pude saber que ele é mais respeitado que seu rival, Orson Welles, por exemplo.
Mas existem outras opções na falta de um bom papo.
As janelas, por exemplo. Sim! É ilusão pensar que as paisagens são sempre as mesmas. Tudo está sempre em transformação para quem vê o infinito. Cada detalhe é importante. A vegetação, os animais, a cor do céu, a variação no tom da iluminação solar... É, parece papo de louco, mas tudo isso é renovador. É como se observássemos a Criação e, com isso, aprendêssemos a ser mais criativos. Mas a prioridade no amarelinho, repito, são as conversas. Conhecer o universo interior das pessoas é mais enriquecedor do que simplesmente contemplar a paisagem.
Ainda tem, nos raros momentos de silêncio,ocasiões para refletir; para ouvir música; e outras para simplesmente Estar: curtir a imensidão do agora, das possibilidades . Por isso, sempre que puder, estarei postando algo sobre as situações que passo dentro dos ônibus metropolitanos. Os "Amarelinhos". Um espaço especial à criatividade, às experiências de vida e, principalmente, às latências-múltiplas-iminentes-por-erupção da reunião caótica de pessoas diferentes.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
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Cássio, essa vida de amarelinho realmente é surpreendente. No meu caso presencio situações bem interessantes e outras tantas aqui no amarelinho da cidade. Se fizermos um recorte é possível escrever uma crônica por dia. Abraços!
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